quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


"Embora lave o medo
que há do fim
a chuva apaga o fogo que há em mim
Ouço a voz de quem
me quer tão bem
E fico a ver se a chuva
a ouvirá também..."


Ornatos Violeta

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009




"Às vezes é uma capelinha antiga ou apenas um retábulo numa pequenina igreja de aldeia, ou um enquadramento especial do mar entre pinheiros, ou uma loja de raridades, um alfarrabista ou simplesmente um bar onde, ao fim da tarde, actua um saxofonista solitário. Coisas que nós achamos deslumbrantes e que provavelmente não comovem ninguém"



"A Flor do Sal" - Rosa Lobato de Faria

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Slaveship


A slaveship, lost at sea
A slaveship, lost at sea
And I'm drowning, your waters deep
I'm drowning, your waters deep

A spaceship, in the country
A spaceship, in the country
And we're flying, into green
We're flying, into green

And I told you a thousand times
(sold you a thousand lies)
I love you, would you marry me?
I love you, would you marry me?

The city, there's an empty street
The city, there's an empty street
And we're dancing, to the lonely beat
We're dancing, to the lonely beat

Your building, is where we'll meet
Your building, is where we'll meet
And I'm hungry, lets get something to eat
I'm hungry, lets get something to eat

Cos I told you a thousand times
(sold you a thousand lies)
I love you, would you marry me?
I love you, would you marry me?
Your daddy, he ain't like me
Your daddy, he ain't like me
I'm striving, I so wanna be
I'm striving, I got to agree

One day girl, you'll be my queen
One day girl, I'll be your king
And we'll reign, in a castle supreme
We'll reign in, a castle supreme

Cos I told you a thousand times
(sold you a thousand lies)
I love you, would you marry me?
I love you, would you marry me?
Cos I told you a thousand times
(sold you a thousand lies)
I love you, would you marry me?
I love you, would you marry me?


Josh Rouse

sábado, 31 de janeiro de 2009

Adiamento







"Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...
"



Álvaro de Campos

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

" Há certas horas, em que não precisamos de um Amor...
Não precisamos da paixão desmedida...
Não queremos um beijo na boca...
E nem corpos encontrarem-se na maciez de uma cama...

Há certas horas que só queremos uma mão no ombro,
o abraço apertado ou mesmo o estar ali, quietinho, ao lado...
Sem nada dizer...

Há certas horas, quando sentimos que estamos para chorar,
que desejamos uma presença amiga,
a nos ouvir paciente, a brincar com a gente, a fazer-nos sorrir...

Alguém que ria das nossas piadas sem graça...
Que ache as nossas tristezas as maiores do mundo...
Que nos teça elogios sem fim...
E que apesar de todas essas mentiras úteis,
nos seja de uma sinceridade inquestionável...

Que nos mande calar ou nos evite um gesto impensado...
Alguém que nos possa dizer:
Acho que estás errado, mas estou do teu lado...
Ou alguém que apenas diga:

Sou o teu Amor!

E estou Aqui! "


William Shakespeare

domingo, 25 de janeiro de 2009

Cantiga dos Ais

Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda

Os ais que vêm do peito
ai pobre dele coitado
que tão cedo se finou

Os ais que vêm da alma
ais d'amor e de comédia
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar
ai a dor daquela mãe

Os ais que vêm do sexo
os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável

Ai pobre daquele velhinho
ai que saudades menina
ai a velhice é tão triste

Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
ai a dor que tenho aqui
ai o gajo também é
ai a vida que tu levas
ai tu não faças asneiras
ai mulher és o demónio
ai que terrível tragédia
ai a culpa é do António

Ai os ais de tanta gente
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós

E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão

Ai que vontade de rir
E os ais do D. Dinis
ai Deus e u é

Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém

Os ais da vida e da morte
ai os ais deste país

Mendes de Carvalho

Meditação na Pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

*
O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade...
(O escritório
Toma-lhe o tempo todo?
Desconfio que não...)

Filhos tivemos um:
Desapareceu...
E já nem sei chorar!

*
Chorar...
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...

Perdi tudo, quase tudo...

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Alexandre O'neill